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terça-feira, 14 de junho de 2011

CRÔNICA DE UMA PROFISSÃO MAL COMPREENDIDA

 PublishNews - 14/06/2011 - O Capista, especial para o PN
 

O que faz um designer gráfico?
 
À inspiração de Fernando Sabino e Alexandre Raposo
 
Aurélia é nossa faxineira há quatro anos. Uma boa profissional, pontual, inteligente e bem articulada. Nossa única reclamação é sua tendência para a decoração — ao final de cada dia de faxina, nossos objetos, enfeites e até móveis estão numa, digamos, nova "proposta estética de espaço".
 
Todas as terças, Aurélia vem trabalhar e sempre me vê em casa, o dia todo, em frente deste computador e rodeado de livros por todos os lados. Esta semana ela não se conteve e disparou:
 
— Afinal o senhor trabalha em quê?
 
Pensei muito bem na resposta, sentindo que esta pergunta, se mal respondida, me definiria como um desocupado que vive às custas de sua mulher. Esta sim, ela vê sair para o trabalho todas as manhãs e nunca a vê voltar. "Mulher trabalhadora a sua, hein, doutor!" — comenta ela, sempre com um risinho acusador nos lábios.
 
Diante desse risco, respirei fundo e respondi com uma voz empostada, valorizando o mais que eu podia minha atividade profissional:
 
— Sou Designer Editorial.
 
— O senhor é o quê? — perguntou como se tivesse acabado de ouvir um palavrão absurdo.
 
Pensei comigo mesmo: "Ela está achando que eu acabei de inventar esta profissão para justificar minha vagabundagem...". Rapidamente lhe dei outra alternativa:
 
— Sou um capista, Aurélia!
 
— Capista?? — os olhos arregalados dela mostravam que esta palavra também parecia inventada.
 
Vamos então tentar algo mais simples:
 
— Eu desenho capas de livros. Sou um desenhista.
 
— Aaaaaah, sei, sei!
 
Ufa! Uma reação mais positiva, estou chegando lá...
 
— Então esses livros todos ali na prateleira... o senhor que desenhou?
 
Todo orgulhoso, percebendo que minha mensagem fora devidamente entendida, fui direto para a estante e peguei uma de minhas capas favoritas para mostrar. Modéstia a parte, era uma bela capa: clean, fundo azul petróleo, toda tipográfica, sem imagens, apenas explorando visualmente a composição das letras do titulo do livro, de maneira que transmitisse um diferencial à publicação. O resultado acabou unindo harmonia estética e apelo comercial.
 
— Veja isso, Aurélia! – exclamei, entregando o livro com o peito inchado de orgulho.
 
Ela pegou o livro e começou a olhá-lo com atenção. Virou, examinou a quarta capa, depois olhou atentamente a lombada. Por fim, virou de frente novamente e ficou quase um minuto inteiro com o olhar fixo na capa. Acabando sua análise criteriosa, me encarou bem séria e arrematou:
 
— Então o senhor é desenhista, é? O senhor está é me enganando. Não estou vendo nenhum desenho neste livro, doutor, só tem estas letras soltas aqui...
 
***
 
Não ria. Não ria de Aurélia. Posso atestar que muitos profissionais do mercado editorial também têm dificuldade em compreender o real papel de um designer editorial. Muitos ainda têm a imagem enraizada do designer como um "artista" que trabalha movido por intuição e inspiração. Um sujeito totalmente à parte da estratégia comercial da editora. Não os culpo. Afinal, muitos designers fazem questão de alimentar esta imagem que lhes dá um certo status e valorização financeira, que incham ainda mais seus egos imensos.
 
Se reconhecermos a capa como uma importante peça de comunicação na comercialização do livro – talvez a mais importante – fica mais fácil compreender o Designer Capista como um profissional da área de Comunicação e não como um profissional da área de Artes. Fica também mais claro que a capa não é uma obra de arte nem o designer é um artista. O capista é um profissional que precisa conhecer a fundo técnicas de comunicação visual, semiótica etc. Ou seja, sua função nada tem a ver com "criar uma capa linda e bem chamativa". Para mim, a principal função de um designer é "traduzir visualmente as intenções comerciais da editora em relação ao livro e a seu público leitor". Será que vocês já tinham refletido sobre tudo isso?
 
Como podem ver, talvez nossa Aurélia não esteja sozinha...
 
O Capista
http://blog.capista.com.br

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A ÚLTIMA CRÔNICA

Por Fernando Sabino


A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que dialhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

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Nota: Esta é uma das crônicas mais belas que já li. A maestria com que Sabino desenrola uma crônica a partir de um fato cotidiano que passaria despercebido por muito. O assuntos que nos leva a refletir quanto a condição social, ao racismo e também uma metalinguagem que a crônica aborda o próprio ato de ser cronista e fazer uma crônica.

A intertextualidade é perfeita quando ele dialoga com o "Último Poema" de Manoel Bandeira (postagem abaixo) e as frases que marcam tanto em Sabino como em Bandeira: "Assim eu queriria minha última crônica" e "Assim eu quereria meu último poema".

terça-feira, 12 de abril de 2011

O ASSALTO

Crônica por Carlos Drummond de Andrade

Na feira, a gorda senhora protestou a altos brados contra o preço do chuchu:
 
— Isto é um assalto!
Houve um rebuliço. Os que estavam perto fugiram. Alguém, correndo, foi chamar o guarda. Um minuto depois, a rua inteira, atravancada, mas provida de um admirável serviço de comunicação espontânea, sabia que se estava perpetrando um assalto ao banco. Mas que banco? Havia banco naquela rua? Evidente que sim, pois do contrário como poderia ser assaltado?

— Um assalto! Um assalto! — a senhora continuava a exclamar, e quem não tinha escutado, escutou, multiplicando a notícia. Aquela voz subindo do mar de barracas e legumes era como a própria sirena policial, documentando, por seu uivo, a ocorrência grave, que fatalmente se estaria consumando ali, na claridade do dia, sem que ninguém pudesse evitá-la.

Moleques de carrinho corriam em todas as direções, atropelando-se uns aos outros. Queriam salvar as mercadorias que transportavam. Não era o instinto de propriedade que os impelia. Sentiam-se responsáveis pelo transporte. E no atropelo da fuga, pacotes rasgavam-se, melancias rolavam, tomates esborrachavam-se no asfalto. Se a fruta cai no chão, já não é de ninguém; é de qualquer um, inclusive do transportador. Em ocasiões de assalto, quem é que vai reclamar uma penca de bananas meio amassadas?

— Olha o assalto! Tem um assalto ali adiante!

O ônibus na rua transversal parou para assun tar. Passageiros ergueram-se, puseram o nariz para fora. Não se via nada. O motorista desceu, desceu o trocador, um passageiro advertiu:

— No que você vai a fim do assalto, eles assaltam sua caixa.
Ele nem escutou. Então os passageiros também acharam de bom alvitre abandonar o veículo, na ânsia de saber, que vem movendo o homem, desde a idade da pedra até a idade do módulo lunar.
Outros ônibus pararam, a rua entupiu.

— Melhor. Todas as ruas estão bloqueadas. Assim eles não podem dar no pé.
 
— É uma mulher que chefia o bando!
 
— Já sei. A tal dondoca loira.
 
— A loura assalta em São Paulo. Aqui é morena.
 
— Uma gorda. Está de metralhadora. Eu vi.
 
— Minha Nossa Senhora, o mundo está virado!
 
— Vai ver que está caçando é marido.
 
— Não brinca numa hora dessas. Olha aí sangue escorrendo!
 
— Sangue nada, é tomate.
 
Na confusão, circularam notícias diversas. O assalto fora a uma joalheria, as vitrinas tinham sido esmigalhadas a bala. E havia jóias pelo chão, braceletes, relógios. O que os bandidos não levaram, na pressa, era agora objeto de saque popular. Morreram no mínimo duas pessoas, e três estavam gravemente feridas.

Barracas derrubadas assinalavam o ímpeto da convulsão coletiva. Era preciso abrir caminho a todo custo. No rumo do assalto, para ver, e no rumo contrário, para escapar. Os grupos divergentes chocavam-se, e às vezes trocavam de direção; quem fugia dava marcha à ré, quem queria espiar era arrastado pela massa oposta. Os edifícios de apartamentos tinham fechado suas portas, logo que o primeiro foi invadido por pessoas que pretendiam, ao mesmo tempo, salvar o pêlo e contemplar lá de cima. Janelas e balcões apinhados de moradores, que gritavam:

 
— Pega! Pega! Correu pra lá!
 
— Olha ela ali!
 
— Eles entraram na Kombi ali adiante!
 
— É um mascarado! Não, são dois mascarados!
 
Ouviu-se nitidamente o pipocar de uma metralhadora, a pequena distância. Foi um deitar-no-chão geral, e como não havia espaço uns caíam por cima de outros. Cessou o ruído, Voltou. Que assalto era esse, dilatado no tempo, repetido, confuso?

— Olha o diabo daquele escurinho tocando matraca! E a gente com dor-de-barriga, pensando que era metralhadora!
 
Caíram em cima do garoto, que sorveteu na multidão. A senhora gorda apareceu, muito vermelha, protestando sempre:
 
— É um assalto! Chuchu por aquele preço é um verdadeiro assalto!