Mostrando postagens com marcador Variação Linguísitca. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Variação Linguísitca. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de maio de 2011

POLÊMICA OU IGNORÂNCIA?

Para ampliar nosso conhecimento e discussão, estou postando abaixo o texto que Marcos Bagno escreveu no site oficial dele referente a questão do livro que o MEC adotou.

---------------------------------------------------------------------

Marcos Bagno
Universidade de Brasília

DISCUSSÃO SOBRE LIVRO DIDÁTICO SÓ REVELA IGNORÂNCIA DA GRANDE IMPRENSA


Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.

Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia páginae saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos doque eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentementeconvencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).

Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.

Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana. Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro,  com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.

Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro doconjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.

A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.

Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).

Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa nãosignifica automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los aomundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.

Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é  dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também.

Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).

O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em quea defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?

MEC DISTRIBUI LIVROS QUE ACEITA ERROS DE PORTUGUÊS

Fonte: O Globo

O Programa Nacional do Livro Didático, do Ministério da Educação (MEC), distribuiu a cerca de 485 mil estudantes jovens e adultos do ensino fundamental e médio uma publicação que faz uma defesa do uso da língua popular, ainda que com incorreções. Para os autores do livro, deve ser alterado o conceito de se falar certo ou errado para o que é adequado ou inadequado. Exemplo: "Posso falar 'os livro'?' Claro que pode, mas dependendo da situação, a pessoa pode ser vítima de preconceito linguístico" - diz um dos trechos da obra "Por uma vida melhor", da coleção "Viver, aprender". 

Outras frases citadas e consideradas válidas são "nós pega o peixe" e "os menino pega o peixe". Uma das autoras do livro, Heloisa Ramos afirmou, em entrevista ao "Jornal Nacional", da Rede Globo, que não se aprende a língua portuguesa decorando regras ou procurando palavras corretas em dicionários. 

- O ensino que a gente defende é um ensino bastante plural, com diferentes gêneros textuais, com diferentes práticas de comunicação para que a desenvoltura linguística aconteça - disse Heloisa Ramos. 

Em nota encaminhada ao "Jornal Nacional", o Ministério da Educação informou que a norma culta da língua será sempre a exigida nas provas e avaliações, mas que o livro estimula a formação de cidadãos que usem a língua com flexibilidade. O propósito também, segundo o MEC, é discutir o mito de que há apenas uma forma de se falar corretamente. Ainda segundo o ministério, a escrita deve ser o espelho da fala.


---------------------------------------

Nota: 
Vamos concordar que a variação linguística deve ser respeitada levando em conta que todo aluno traz consigo conhecimentos prévios apreendidos no seu meio de convívio. Porém devemos orientá-los ao que o País estabeleceu como padrão, visto que o próprio MEC que adotou este livro, vai cobrar mais tarde dos alunos a norma culta, através do vestibular e do ENEM.

Se como sistema, os colégios e professores se utlizam de livros que concordam com os "erros", quem irá instruir esses alunos? Temos que analisar os paradigmas que norteiam a língua portuguesa, ou será que estamos encaminhando para uma revolução no mundo das letras?

-----------------------------------

A escritora Ana Maria Machado, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), foi outra a desaprovar o livro:
- Custo a crer que seja exatamente isso que a notícia traz, descontextualizado. Se for, é um absurdo total. 

Equivale a pretender aceitar que dois mais dois possam ser cinco, com a "boa intenção" de derrubar preconceitos aritméticos. Para evitar a noção de "errado", prefere-se, então, esse paternalismo condescendente de não corrigir.

Para ela, pode haver "malabarismos linguísticos", mas dentro de um contexto: 

- Com isso, consolida-se outro conceito, o de "coitadinho", tão pernicioso e tão prejudicial ao pleno desenvolvimento dos cidadãos. É claro que qualquer um pode cometer todos os barbarismos linguísticos que quiser, mas deve saber que eles só se sustentam dentro de um contexto (um autor que reproduza a fala popular, por exemplo) e têm um preço social. 


Ela ressalta, porém, que a escola deve ajudar o cidadão a ser poliglota da própria língua: 

- A escola deve ajudar o cidadão a se tornar um poliglota em sua própria língua, capacitando-o a utilizar registros diversos de linguagem em circunstâncias diferentes. 

O professor Sérgio Nogueira também não concorda com o tratamento adotado nos livros distribuídos pelo MEC: 

- É um absurdo. O ensino já está tão ruim. Trata-se de um incentivo ao desvio da norma.
Acham que o aluno é incapaz de aprender concordância. Existem variantes na nossa língua. Só que todos terem de aceitar é uma outra história. 

Segundo o ministério, a escolha dos livros didáticos não passa pelo crivo dos gestores públicos. A indicação é feita por universidades a partir de ofertas das editoras em licitações públicas. As universidades fazem a seleção com base na análise de livros sem capa e sem identificação de origem. Com a indicação, os livros vão para o catálogo do ministério. Mas o livro só é comprado e distribuído se algum professor se interessar pelo texto e fizer o pedido ao Programa Nacional do Livro Didático.

terça-feira, 12 de abril de 2011

DRAMATIZAÇÃO: VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

A dramatização abaixo foi apresentada pelos colegas da faculdade sobre a variação linguística. Achei muito bem bolada, criativa e levanta uma discussão importantíssima acerca do respeito mútuo quanto às variações existente dentro de uma mesma língua portuguesa.

Aproveito para indicar a leitura, na íntegra, do livro do linguísta Marcos Bagno: Preconceito Linguísitico o que é, como se faz. Bagno aborda a inclusão social, por meio do não preconceito com os diversos falares presentes no país, inclusive o respeito quanto à diversidade cultural brasileira.

DRAMATIZAÇÃO

Por: Alécia Nunes, Ana Carla, Maurício Lima, Moisés Carneiro, Moisés Fiúza

Patativa - Gud moringa! Ou gud moring! Bão jú! Beiju ou Bujudo! Eita língua istranha sô! Tinha uns homão e umas muier caneludas, pálida que nem vela lá fora, acho que nunca viram o sorzão do sertão. Eles passavam pur mim e me cumprimentava assim, eu num intindia nada, mas, pela rivirência cum a cabeça paricia que era bão dia. sabe lá!

Ops! Perdão, Bão dia prefessor! Me adiscurpa o atrazo. É que a muier se isquiceu de botar o galo de quarto pra cantar num sabe?  Ô Rosarva abestada, tem medo do bicho de ferro.

Professor- Em primeiro lugar é bom dia e não bão dia! E não é prefessor, e sim professor, e tem mais, a mulher esqueceu-se de programar o despertador para alarmar.

Pat – Oia que cuincidencia! A sua também se isquiceu foi?

Prof– Ai meu Deus! Patativa... Patativa... O Senhor deveria acordar antes do galo cantar, pois, não sabes que o todo poderoso presta assistência aos que antes da ocasião própria levantam da cama ao alvorecer?

Pat – O prefessor fala istranho Né pessoá? Ah prefessor eu posso dizer isso mió intendido que o sinhor.  Oia o rudeio qui ele fez pra mo´de dizer; Patativa o sinhor num sabe que Deus ajuda a quem cedo madruga? Lá na roça a gente acordemo cum as galinha tacudo. E nem pricisa muier botar galo de quarto pra cantar. Quer insinar missa a vigário é? Ara sô!

Fiuza - É mesmo profissa! Quem Pinota cedo da cama, o mano lá de cima ajuda, é bem mais fácil de se arrumar nas idéias do que esse rolé que o senhor deu ai com as palavras.  Desse jeito o profissa parece até um almofadinha falando.

Ana Carla – Pô meu! Então a piriguete aqui tá na bruxa! Só acordo tarde. Vocês ainda entenderam esse troço, e eu que não captei nada que o gostosão ai falou.

Álecia – Você nunca entende nada mesmo. Mas no baile funk tu se liga nas letras tudo. Né não? Só as cachorras uuuuu, as preparadas uuuuu.

Ana Carla – Oia pra essa daí oia! Doida pra cair na dança com o professor. Eu tô ligada em você. Você quer me atravessar, mas, o professor já tá na mira. Se saia viu?

Prof – Calma lá pessoal! Não sejam presunçosos. Cada espécime dos primatas deve permanecer na subdivisão do caule de uma árvore ou arbusto que lhe pertencem. Eu sou o mestre e vocês são apenas alunos. Devem me escutar e me respeitar.
Pat – Ô cabra marrento! O sinhor num rispeita meu falar e inda fica ai Cheio de trimiliques pra dizer o ditado mais populoso do sertão. O dito cujo, Cada macaco no seu gaio. Cuidado pra num cair do seu hein? Ele tá muito arto. Ê nariz impinado. 

Fiuza – É isso ai profissa! Cada pivete na sua parada e as mamães continuam a sorrir numa boa. Se ligou na letra?


Ana Carla– É isso ai Teacher! Cada nega com seu nego e eu não quebro dente e nem desarrumo cabelo de nenhuma piranha. Sentiu o drama? Não? Faço você sentir depois da aula se quiser.

Álecia – Sai pra lá piriguetona oferecida! Que o professor não vai querer nada com você. Não é querido mestre?

Prof- Oh my God! Cada indivíduo cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais cultiva seus hábitos peculiares e obsessivos. Fazer o quê diante deste quadro?

Pat – Eita mania de infeitar e dá vortas pra falar um simpres povérbio popular. Cada louco cum suas mania. Sabe prefessor vou te dizer umas lera reá também. Iscuita só:



*Sem lábia formal, mas cum sabiduria
me faço intindido im todas região
inquanto que tu com tal maestria
de grama dramática, mas sem poesia
num quis me intendê aqui neste salão. 

Agora me arretiro e deixo verdades
Cunosco eu sei, que tu té pudia
fundi as linguage em pasto mió
Formal e informal, sem ter bestêró
E variar tudo em trocêra de nó.

Língua brasileira seu peste sem cabra
Rural, urbana, palácio ou chupana
Indígina, gringas em roças de cana
Do império a Husself ou Lulalalá
Não julga-se o bem nem o seu má falá.
                                   *Por: Moisés Carneiro

Mas de uma coisa eu sei. Falta poisia in teu mode de insiná.

Ô Minha Cumade Ana! O que o poeta da roça tem pra prosiá?

ANA - O POETA DA ROÇA? - Ele diz o seguinte:

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mío.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.

Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode istudá.

Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.

Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sodade que mora em meu peito.

Eu canto o cabôco com sua caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage
Topando as visage chamada caipora.

Eu canto o vaquêro vestido de côro,
Brigando com o tôro no mato fechado
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.

Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.

E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade,
Cantando as verdade das coisa do Norte.

(ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1980)