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quinta-feira, 23 de junho de 2011

LIVRO QUE SATIRIZA TENTATIVAS DE PÔR CRIANÇAS PARA DORMIR VIRA BEST-SELLER

Para onde vai a educação dos pais às crianças? Onde vai parar a qualidade de nossas literaturas? Que inversão de valores estamos vivenciando neste século... em que o que faz sucesso é o errado, chulo e com palavrões como nos conta a reportagem abaixo da BBC Brasil. Confira.

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LUTA INGLÓRIA


O livro é o segundo mais vendido da Amazon e será lançado no Brasil em julho

Um livro que narra em versos a odisseia dos pais para colocar uma criança para dormir tornou-se um dos mais vendidos nos Estados Unidos, depois de ter sido pirateado e distribuido ilegalmente pela internet.



Desde o fim de abril, o livro Go the Fuck to Sleep (em português, "Vai dormir, p..."), do americano Adam Mansbach, está na lista dos 100 mais vendidos da Amazon, a maior livraria online do mundo.

No entanto, o livro só foi lançado oficialmente no dia 14 de junho, quando chegou ao segundo lugar na lista.
A publicação faz uma paródia dos livros infantis de poesia. Mas nela, pais exaustos e frustrados pedem - usando palavrões - que o filho vá dormir logo e pare de querer levantar da cama.

A linguagem causou polêmica entre associações de pais nos Estados Unidos e em outros países de língua inglesa como a Nova Zelândia, onde uma associação cristã chegou a tentar impedir que a publicação fosse vendida no país.

Sucesso

Descrito pelo autor como "um livro de ninar para adultos", Go the Fuck to Sleep virou um sucesso instantâneo meses antes do lançamento, que seria em outubro e foi antecipado.

Adam Mansbach disse ao jornal britânico The Guardian que a idéia dos versos começou como um post no Facebook em junho de 2010, em que ele anunciava que escreveria um livro com este nome, depois de mais uma tentativa de colocar sua filha Vivien - então com 2 anos - na cama.

“Era uma brincadeira, é claro, porque eu não tinha intenção de escrevê-lo. Mas de repente, todos queriam saber quando o livro seria publicado. Isso me pegou de surpresa, para dizer o mínimo”, disse.

No fim de semana seguinte à leitura de alguns versos do livro em público, o livro de Mansbach chegou aos cinco primeiros na lista de mais vendidos da Amazon, com base somente no número de pedidos de pré-venda.

Semanas depois, o livro foi pirateado e circulou como um arquivo na internet. Em entrevista à versão britânica da revista Wired, o autor disse que chegou a tentar, juntamente com a editora, tirar os arquivos do ar, sem sucesso.

“As pessoas perceberam que (a versão da internet) não era o suficiente. Elas viram que tinham que segurar o livro nas mãos, que era um livro para presentear. O que você vai fazer com um (arquivo de extensão) PDF de baixa resolução? Imprimi-lo, grampeá-lo e dar para alguém no dia dos pais? Acho que não”, disse.

Linguagem adulta

Desde então, a publicação já ganhou uma versão em áudio, produzida pela Audible.com, a divisão de audiolivros da Amazon, e disponibilizada para download gratuito.

A versão é narrada pelo ator americano Samuel L. Jackson e ultrapassou os cem mil downloads em suas primeiras 48 horas no ar.

Na última semana, o cineasta alemão Werner Herzog leu os versos da obra em um evento promocional na Biblioteca Pública de Nova York e a produtora cinematográfica Fox 2000 comprou os direitos de adaptação do livro para o cinema.

Apesar do sucesso, o livro gerou críticas de pais que consideram a linguagem muito rude e inapropriada, mas segundo Mansbach, a resposta negativa à publicação foi minoritária.

Mesmo assim, o autor diz estar preparando uma versão sem palavrões para as crianças. O livro será lançado no Brasil em julho.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

POR UMA IDEIA DE LITERATURA EXPANDIDA

Artigo escrito pela Dra. Cristiane Costa, publicado em O Globo. Vale a pena conferir. Uma reflexão profunda da nova literatura e seus novos suportes eletrônicos. Dá ainda pra chamar a literatura da década de 90 de contemporânea?


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O cinema nasce do teatro, mas não é teatro. É uma nova arte, com uma nova linguagem, criada a partir de uma nova tecnologia. O mesmo pode ser dito da fotografia em relação à pintura. E, com algumas ressalvas quanto a seu conteúdo artístico, do rádio e da televisão. Terá chegado a vez da literatura? Até onde ela pode se expandir em hipertextos, hiperlinks, multimídias, quebrando a linearidade da página, antes de se tornar uma nova arte?

Enxergar que o livro eletrônico é um novo passo na longa série de invenções de tradições narrativas tira o foco da discussão banal entre os que acham que o livro impresso vai acabar e os que se recusam a abandonar o papel.

A própria ideia de livro e literatura perde parte de seu sentido quando nos deparamos com novas estratégias narrativas em bases digitais, que atuam na confluência de várias artes e mídias. O aspecto inovador não está restrito apenas à tecnologia de leitura dos tablets, nos chamados >ita<enhanced books ou enriched books (livros enriquecidos ou turbinados), mas também às maneiras de narrar.

A “literatura” é contaminada pela lógica interativa dos games; cortada, colada e remixada, como fazem os DJs; integrada à internet, misturando palavra, vídeo, foto, som e animação, e explodindo em 3D nas telas com cenários e personagens em Realidade Aumentada. Estes “livros” podem ainda ser reescritos por seus leitores, em experiências interativas e colaborativas que colocam em questão o conceito de autoria e propriedade intelectual.

Na era digital, books viram vooks (vídeo + book). Romances epistolares passam a ser e-pistolares, com símbolos do SMS substituindo os travessões. Até mesmo coordenadas geodésicas, como as marcações do Google Maps, podem oferecer estruturas narrativas jamais usadas antes para clássicos como “A volta ao mundo em 80 dias”, de Julio Verne. Chatbots (programas de computador desenhados para similar uma conversação normal entre personagens e leitores) abrem espaço para um nível de interatividade inédito.

Ainda é cedo para medir o impacto na criação literária dessa literatura sem papel. O livro eletrônico poderia desenvolver novas formas expressivas, assim como o livro impresso possibilitou o boom do romance, e a câmera, do cinema? Novas tradições narrativas não nascem do nada, alimentam umas às outras. O desejo de imersão no universo fantasioso é uma ambição da literatura desde os seus primórdios. Desejo que pode ser intensificado ao máximo neste mundo em que os verbos ler, ver, ouvir, interagir, compartilhar e comentar se misturam. Mas, se tudo é dado pela tecnologia, qual o espaço para a imaginação?

Tudo isso enche os olhos, mas ainda parece experimental demais, sem qualidade literária que possa ser apreciada pelo leitor comum. No entanto, há décadas lemos e apreciamos obras que permitem criar combinações, experimentando uma outra ordem de leitura. Os poemas aleatórios de Tzara, os labirintos de Borges, as construções hipertextuais de Cortázar, as experiências de Perec e do grupo Oulipo, os cut-ups de William Burroughs ou as histórias incompletas de Calvino já apontam para uma forma de expressão não-linear e exigem um leitor mais ativo do que passivo.

Chega a ser sintomático que, quando usamos o termo literatura contemporânea no Brasil, em geral pensamos numa geração surgida a partir dos anos 90, quando a web ainda engatinhava, ignorando tudo o que de mais inovador vem sendo produzido desde então, inclusive por autores nacionais. Uma literatura sem papel vem se desenvolvendo como um universo à parte, com seus próprios canais de distribuição, utilizando-se de novos suportes, desenvolvendo suas próprias categorias críticas. Mesmo críticos mais renomados se surpreendem ao ver o vigor desta produção que cresce à margem das instituições e saberes tradicionais. Fatalmente se questionam sobre seu papel neste universo estruturalmente participativo, em que produtores e consumidores se misturam. E se ressentem da perda de seu prestígio como gatekeepers, perdendo o poder de dizer o que é bom ou ruim. Poder que passou a ser pulverizado por comunidades de fãs (com seus fancritics, fanartists, fanfictions etc), que se comunicam e compartilham interesses fora das redes tradicionais dos suplementos literários e círculos universitários. 


CRISTIANE HENRIQUES COSTA é doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ, professora da ECO e pesquisadora do pós-doutorado do Programa Avançado de Cultura Contemporânea, onde desenvolve estudo sobre as novas estratégias narrativas em mídia digital. É curadora, junto com Heloisa Buarque de Hollanda, do ciclo Oi Cabeça, que acontece até dezembro no Oi Flamengo. Dia 22, às 19h30m, Scott Lindenbaum, Paulo Werneck, Sergio Rodrigues e Carlos Carrenho falam sobre “Novos espaços para a literatura”